A Peixotada

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Carta aberta ao Senhor Deputado Carlos Peixoto 
Sr. Dr. Advogado e Deputado do PSD: 
Antes de mais, cumprimento Vª Exª por ter dado à luz, com o esforço que nem todos imaginam, uma tal prova. Que atesta, contra a senilidade da Oposição, uma juvenilidade que só alguns afiançavam ser marca d’água desta nossa maioria. 
Diz Vª Exª que os portugueses estão “a desaparecer”. Quem o pode negar? Só a cegueira da Oposição a impede de ter em conta este facto – cada vez há menos portugueses (pelo menos, como também diz, “autóctones”). Já quanto aos de antanho, senhor Deputado, contam-se pelos dedos. Espécie em vias de extinção, aquela de “homem de um só parecer/ de um só rosto, uma só fé/ de antes quebrar que torcer… [outra cousa pode ser/ mas de corte homem não é]”. 
E não há dúvida de que o resultado “só pode ser assustador”, como avisa Vª Exª, “porque desafia a nacionalidade portuguesa”. A bem dizer, já nem os espanhóis agora nos quereriam. A vestir estas valiosas ideias, o senhor Deputado apura quanto pode a imagem – “evidência incontornável”; “decréscimo alarmante”; “cenário dantesco” (a mostrar como leu o seu Dante, mesmo não sendo um Vasco Graça Moura, mais um exemplar da “peste grisalha” que veio contaminando a Pátria). 
Tem toda a razão: “a guerra contra o envelhecimento é assunto pouco dado a protocolos” e “os problemas estão todos ligados”. Basta lembrar a estimativa do INE para 2050. E fazer as contas. Se o senhor Deputado, por exemplo, estiver agora a caminhar para essa idade média de 2050 (“próxima dos 50 anos”), que a de agora (41,8) já Vª Exª passou, quando lá chegar está feito! Ora ainda temos de ver que até jotinhas, que já hoje só pela frente não dirão Vª Exª cota, que é como quem diz passado, serão então, se tiverem a sorte de ainda por cá andarem, “peste grisalha”. Logo, a guerra não é só urgente – já era… para ontem). 
Nenhum escrúpulo nem preconceito – dada a “estimativa do INE” e o exemplo de vanguarda de Vª Exª – nos deve afligir. O que nos deve afligir é “a onda de emigração que nos últimos e nos próximos anos vai assolar o nosso território”! E numa coisa, senhor Deputado, havemos todos de convir – a que “vai assolar” “nos últimos” será bem mais perigosa do que a que só vai assolar nos próximos. 
O último ano que houve substituição de gerações foi em 1982 (já lá vão 20 anos). Ninguém tem como negar o que Vª Exª afirma – e se afirma que já lá vão 20 anos, é porque já lá vão 20 anos. Só não sei, senhor Deputado, se uma filha minha (a mais nova, que por sinal nasceu nesse ano que também cá por casa foi o último em que houve substituição de gerações, já o senhor vê quão grisalhos nos fizemos) pode dizer, como suspeito que gostasse, que tem 20 anos. 
A nossa Pátria foi contaminada com a já conhecida “Peste grisalha’. Contaminada, pois. Então não se diz que a velhice é uma praga? E não há também quem isto diga dos fedelhos? E das mulheres, “peste malina”? (Mas aí já não sei, o senhor deputado não disse se acha). Não percebo, por isso, por que se meteram com o senhor – afinal, o que diz é “a já conhecida” (como “peste malina”, que até foi título de livro, como suponho que venha a ser a obra de Vª Exª). Se é conhecida, são eles os ignorantes – e não tem o senhor nenhuma obrigação de explicar o que já todos devíamos saber e usar há muito. 
De temer, por conseguinte, não é o nome da “já conhecida” peste. É que ela nos vença, nesta guerra – porque, como tão bem aqui se sustenta, “não há crescimento económico que vença o envelhecimento populacional”. Essas é que são essas! 
Pode até (o crescimento económico) “suavizá-lo, ou adiá-lo” (ao envelhecimento). Mas o facto, como Vª Exa alerta, é que “o país caminhará sempre para uma espécie de eutanásia pré-anunciada”. Ninguém diria melhor, senhor Deputado. “Caminhará sempre”, porque um país não pára – com ou sem consensos, como disse o nosso Primeiro. “Uma espécie de”, porque a eutanásia é proibida (e a Constituição, “vetusta”, se calhar não permite). “Pré-anunciada”, porque há que dizer a verdade… e o pior cego é o que não quer ver.
Se “em anos de fogosidade e crescimento”, que é coisa que já lá vai, “o défice da segurança social não parou de aumentar”, “o ano de 2012”, que foi o que sabemos, “foi o primeiro dos últimos dez em que a Segurança Social registou um défice ou saldo negativo”. Assim, e como é lógico, se já dantes havia problemas com o défice, que então não havia, agora é que ele é, a bem dizer, um problema. 
E o senhor Deputado, franco como é, nem esconde que foi “devido a um factor extraordinário” que o défice, que já dantes não parava de aumentar, se tornou efectivamente défice . É que o governo, coitado, para tapar buraco em 2011, “encaixou” 5,6 mil milhões (que foi buscar ao fundo de pensões dos bancários, porque “o dinheiro não é elástico e não aparece de todo o lado”, pelo contrário: nem ele aparece de todo o lado nem desaparece todo do lado de onde mais aparece); com esse dinheirinho, que entretanto lhe serviu para uns remendos, ficou com o encargo dos bancários, gente se calhar também grisalha e, pelo menos no antigamente, muito do contra. Ora, só este ano de 2012, o primeiro do pagamento das pensões aos ditos, já a SS gastou 9% do montante do “encaixe” – de que não dispôs, coitada, porque o governo, naquele aperto, não se lembrando de onde mais é que podia ir buscar dinheiro (e os bancos, penso eu, a esse até gostaram de o “passar”), também teve em conta, e bem, de que a cada dia os seus males. E sempre podem os nossos agora dizer, que passa a ser verdade, que as contribuições já nem sequer chegam para as pensões – o que também ajuda o governo, coitado, que quer pagar menos, a “gastar” menos. 
Neste Estado, por conseguinte, “auto-insustentável” (a este fulgor, senhor Deputado, bastou aquele prefixozito…), “todos os responsáveis políticos têm o dever patriótico e geracional de pensar responsavelmente em medidas de choque para o país”. Ora bem: se são responsáveis, insista-se, é responsavelmente que têm de pensar; se é “para o país”, o dever é “patriótico” – mas também, dada a guerra do “cenário dantesco”, contra a tragédia da “peste grisalha” que já contaminou a Pátria, terá de ser geracional; e como é urgente, que amanhã já era, é óbvio que terão de ser “medidas de choque”. 
Pense-se só nisso: quantos já são, os grisalhos? se calhar, até já eu, você, em sua casa, os vizinhos, sei lá quantos deputados (mesmo que não pareçam nada, verdade seja dita, basta olhar o senhor)… Governantes poucos, como convém, mas comentadores são aos montes – sobra-lhes tempo e aquilo sempre dá um dinheirito a juntar às pensões, se calhar de miséria, porque também não atingidas. Que seria de um regime de excepção, se não fosse excepção? Não entendem. O meu vizinho, que não quer saber, até discutiu comigo, senhor deputado, como se fosse um antigo sindicalista, berrando onde é que cerca de mil euros líquidos… (sim, porque eles só contam o líquido), que ainda teria de pagar, tipo castigo só deles, uma contribuição especial – de solidariedade!!!, berrava-me ele. Como se não soubessem que estamos em guerra, e é com eles, pois claro, que adiassem o envelhecimento, como nós vamos fazendo, em vez de integrarem a barricada da “peste grisalha”; que fossem para os jornais ou as televisões, que lá até se pode ser mais que grisalho – e estar do nosso lado. Berrava-me dos banqueiros, senhor deputado, e dos homens dos negócios e das finanças, que não tinham tal taxa, como se não soubesse, o pobre de espírito, que eles é que são os donos disto, que sem eles não há obra, negócio nem emprego que se veja.
Quem poderá negar, perante este quadro que o senhor tão bem pinta, que “se deve convocar toda a esquerda a abandonar a populista e até agora eternamente irresponsável tese” deles, dos “privilégios instalados”? Privilégios instalados, sim, embora eles o escondam e não digam assim. Mas dizemo-lo nós, que é essa a tese deles. Nunca falam em “privilégios”, muito menos “instalados” – mas é de facto, se formos ao fundo, a tese deles. Populista, sim, que passam a vida a falar no povo, que somos todos, como se estivessem no prec – o que também mostra, para quem alguma dúvida tenha, como a oposição, essa peste, é grisalha, também ela; e a esquerda, toda ela velha. E também ninguém duvide de que tal tese irresponsável seja – pelo menos “até agora eternamente”. 
Não é paradoxo, não – é sinal de que o senhor Deputado leu o seu Vinicius: “mas que seja infinito enquanto dure”. Para a próxima, sugiro a Vª Exª aquela, também muito conhecida e mais ao jeito dos grisalhos, a ver se lhes quadra e deixam de seguir a carreira do senhor: “com as lágrimas do tempo/ e a cal do meu dia/ eu fiz o cimento/ da minha poesia”. Porque o senhor, culto como é, aprecia o sentimento – e tem, como aqui perpassa, uma certa veia. Veja-se, por exemplo: “O país não aprecia que quem teve e pode vir a ter responsabilidades governativas se deleite ou se regale com a deterioração geracional” – que ouvido, senhor Deputado! De resto, também não será por acaso, aquela imagem dos “anos de fogosidade”. E é sobretudo aí que o senhor mostra como sabe ser magnânimo, envolvendo também a Oposição nesse ímpeto varonil, de abrasamento de gente jovem. 
A veia do senhor Deputado vai até mais longe – não é só de ouvido, é um pendor para um dado estilo. Não são apenas as tintas, como as da ênfase. São os próprios enunciados – quase todos originais e muitos coruscantes. Um exemplo: “Antes de disputarem eleições para governar o País, os partidos têm de querer ter país para Governar”. Que desembaraço! Tenho para mim, como diria o senhor Deputado, que o brilho deste trocadilho não está só, nem principalmente, na forma – está na ideia e na autoridade de quem isto defendeu. Tem Vª Exª (e toda a fonte de onde Vª Exª bebe) razão. E não há que beber senão de Vªs Exªs: se somos “o melhor país do mundo”, não tenhamos dúvidas, é por estarmos tão bem entregues. Os outros partidos têm mesmo de querer ter país; se não, que deixem Vªas Exªas em paz para o país que querem. 
Quanto à “vetusta Constituição”, não quer o senhor Deputado dizer mal dela, não senhor. Muito pelo contrário. Ter 36 anos só para fedelhos será muito – não para constituições. Nem para o senhor. A ideia será dizer-nos que, apesar dos sucessivos retoques, já sete ao todo, se calhar ainda fica cara e, como aqui tão bem nos diz, o dinheiro não é elástico, pelo que não haverá, suspeita o governo e os seus deputados, crescimento económico que a sustente… 
Mal da Constituição, não, nunca. Nem o senhor Deputado desgostava de que o dissessem vetusto. A Oposição que experimente. É verdade, a sério, que o senhor não parece – e que aos homens, ao contrário de mulheres e constituições, ficam bem umas cãs. E até alguma dureza de ouvido. Todavia, de ser Vª Exª dura de ouvido é que ninguém tem como sustentar. Suspeito até que “vetusta” lhe tenha vindo da vizinhança: dos sons de “esta [vetusta] Constituição”. Era, com efeito, o que ali ficava (soava) melhor. 
De resto, “vetusta” , não podendo ser por ser velha, há-de ser por ser respeitável. O senhor Deputado sabe-o tão bem (deputado e advogado sendo) que, a ela obrigado, não lhe ia chamar nomes feios. Ora, se a diz respeitável, embora por outra palavra mais cara, não tem nenhum cabimento andar-se a dizer mal de um deputado que chame “vetusta” à Constituição. Podia não a qualificar? Pois podia, mas não era a mesma coisa: como é que “esta Constituição”, já muito dizendo ( muito mais do que “a Constituição”), diria tanto como “esta vetusta Constituição”? Por outro lado, está aqui, preto no branco: “fundamentais”. O que quer dizer que, por ser vetusta – ou mesmo sendo vetusta, numa leitura mais maldosa –, as “missões” que ela confere ao Estado são, como aqui se vê, “fundamentais” – e se o senhor Deputado concede que são, cá está a prova de que só diz bem dela. Fez muito bem, senhor Deputado. Olhe se ia por mais lógica e menos estilo… Vamos que o senhor escreve da forma esperada: ou “já quase não consegue desempenhar as missões que esta vetusta Constituição lhe confere” ou, ao jeito da Oposição, “tem de desempenhar as funções fundamentais que a Constituição lhe confere”… Então é que eram elas – ainda o acusavam ou de “indiferença”, “frieza social”, ou de pouco tino (de traição, mesmo que o discurso fosse tão tendencioso como o da Oposição, creio que ao senhor ninguém se atreveria, mas vá lá a gente fiar-se…). 
Finalmente, chave d’ouro, na sua exortação: 
Precisamos, todos, de mudar a nossa mentalidade, de a renovar, de apostar no incremento da natalidade. 
Se assim não fôr, envelhecemos e apodrecemos com o país. 
E se assim for, senhor Deputado? Se algum partido mudar mesmo… não vai logo ao ar? (E o aparelho deixa? espécie de harakiri, enfim?). 
Vamos que eu mude, que eu consiga (como dizia o outro, é só um “supônhamos”) mudar a minha mentalidade… já não envelheço? Ainda há esperança, há remédio para mim? Diga que sim. 
De Vª Exª sempre 
atentamente