A solidão da economia

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As ciências exactas nem sempre exactamente o são. A exactidão relaciona-se com o grau de conformidade de um valor mensurável em relação a uma medida de referência padrão. Já a precisão evidencia-nos a medida da variabilidade de uma qualquer série de medições em relação a um valor médio. Por outras palavras, se a exactidão é a medida do rigor, a precisão é o detalhe da variação. Exemplificando, a simples e tradicional balança deve ser exacta (ou seja, com medidas correctas) e precisa (com o menor nível possível de variação).

Neste contexto, bem se pode discutir se as chamadas ciências humanas e sociais podem ser chamadas ciências. Não me intrometo neste labirinto científico e na divergência de opiniões. Porém, é possível afirmar, sem grande contestação, que estas disciplinas, umas mais, outras menos, também utilizam métodos considerados científicos.

Fiz esta introdução para chegar à economia, ou segundo alguns autores, à ciência económica. A palavra economia deriva etimologicamente do grego “oikos” e “nomos”, ou seja, a administração do lar, da casa. Acontece que a “casa” vem, desde o século XVIII, com Adam Smith, – considerado o pai da economia moderna – ganhando volume, complexidade e intrincadas interacções. Sobretudo em progressão geométrica alucinante, após a globalização dos mercados, dos movimentos de pessoas, bens e capitais e da diluição dos obstáculos do tempo e do espaço.

No campo económico, constata-se que regras e demonstrações empíricas, dadas antes como adquiridas, se vão esboroando face a sociedades globalizadas e a comportamentos dos agentes económicos imprevisíveis e, não raro, contraditórios e erráticos. A noção de incerteza, do ponto de vista da probabilidade de ocorrência de risco vai sendo engolida pela sua expressão mais superlativa, a da própria imprevisibilidade. Não nos esqueçamos que, regra geral, a economia não pode e não deve recorrer ao método da experimentação científica sobre pessoas e sociedades.

A economia é a ciência social mais amiga da matemática, o que não significa que esta, só por si, garanta a formulação de “leis científicas”. Daí que, embora recorrendo a métodos matemáticos e de inferência estatística, entre outros, a economia é, nesta década do novo século, cada vez mais uma disciplina comportamental e de expectativas. Logo mais dificilmente formatável, modelizável e parametrizável. Este é o grande desafio que se lhe coloca. Um desafio que terá mais a ver com a precisão do que com a exactidão, como acima enunciadas.

Ao contrário dos Prémio Nobel da Química, Física e até Medicina, o Prémio Nobel da Economia pode ser atribuído consecutivamente a economistas reputados, mas com ideias sobre o mesmo tema bastante divergentes, senão mesmo opostas ou contraditórias. A sátira atribuída a Winston Churchill de que “entre dois economistas, há pelo menos três opiniões, sendo que se um deles for Keynes haverá quatro” assume, agora, uma amplitude crescente. Se juntássemos os mais reputados economistas numa fila perfeita, arriscar-nos-íamos a vê-los apontar em todas as direcções e sentidos.

Alguém já terá chamado, exageradamente, aos economistas os “imperialistas das ciências sociais”. De facto, há quem, neste seu ofício, fale como detentor ou monopolista de “verdades” económicas. Todavia, nestes tempos de mudança veloz, bom seria perceber, com humildade, três “postulados”, não só, mas igualmente aplicados à economia: 

  • 1º) a economia é demasiado importante para só ser tratada por economistas; 
  • 2º) os economistas que só sabem de economia, arriscam-se a saber muito pouco de economia;
  • 3º) Na política económica há sempre alternativas que ofuscam qualquer TINA (“there is no alternative”).
Talvez se peça demais à “solidão” da economia. E da política económica. Ambas importantes, mas não necessariamente predominantes ou hegemónicas face ao primado das pessoas.

António Bagão Félix
http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/07/24/a-solidao-da-economia/