As presidenciais aos olhos de quem foi chamado a votar pela primeira vez

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Tiago Ricardo*

“Vivo em Vale das Mós, uma aldeia com pouco mais de 500 habitantes pertencente ao concelho de Abrantes e, tal como na maioria das povoações desta dimensão, a população é a maioritariamente constituída por idosos, jovens de outrora que experienciaram a repressão e a impossibilidade de contribuírem com a sua opinião para os destinos do seu país.”

 

Se alguma vez imaginei o primeiro dia em que exerceria o meu direito de voto, certamente que nunca pensei que acontecesse nas circunstâncias actuais. Mas de uma coisa tenho a certeza: exerci-o de forma consciente e a democracia pode continuar a contar comigo.

2021 deu continuidade à atipicidade a que 2020 já nos tinha habituado. No entanto, apesar dos números caóticos de contágios e fatalidades a que temos vindo a assistir nas últimas semanas, o nosso dever, enquanto cidadãos, de participação na vida democrática do nosso país não ficou confinado. Assim, este domingo, mais de 10 milhões de portugueses, de entre os quais perto de 7500 jovens novos eleitores (incluindo eu), foram chamados a votar numa eleição que acabou por ditar a vitória, para muitos certa à partida, de Marcelo Rebelo de Sousa.

 Eleições em ano de pandemia (e em dose dupla, porque no Outono irão decorrer as eleições autárquicas) são sinónimo de perda total do encanto de um acto eleitoral — desaparecem os beijos, os abraços, os comícios (para alguns), as fotos e uma panóplia de outras coisas. Para mim, que sou um genuíno apreciador de política, estas eleições foram como que um mimo neste tempo de confinamento, uma vez que vieram transmitir alguma “normalidade” às minhas rotinas, permitindo que, por momentos, deixasse os pensamentos negativos próprios do tempo em que vivemos e me centrasse noutro assunto igualmente importante, nomeadamente o debate político. No entanto, aquilo que realmente me perturba é o facto de a maioria dos portugueses não partilhar do mesmo entusiasmo e interesse naquele que é um acto puramente patriótico, de cidadania e, ao mesmo tempo, símbolo da liberdade que adquirimos outrora: o voto.

 

 

* Estudante de Gestão no Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa e natural da aldeia de Vale das Mós, no concelho de Abrantes.

 

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