“GENTE QUE NÃO SABE ESTAR”

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Manuel Costa Alves

Não sei se tem seguido o programa “Gente Que Não Sabe Estar” apresentado por Ricardo Araújo Pereira na TVI. Sigo-o recordando alguns do Herman José de outros tempos e, sobretudo, vejo-me no tempo da ditadura a ler o “Canal da Crítica” que Mário Castrim publicava diariamente.
De vez em quando, tenho ataques de revivalismo. É fatal, já que (quase) não há análise crítica de televisão – nem de cinema nem de livros, nem de quase tudo. Não há análise, nem reflexão, nem problematização. Afogam-nos no pântano da resignação.
O programa de Ricardo Araújo Pereira é uma pedrada no charco de quase todos os programas de televisão e da forma como navegam na política. Traz-nos a atualidade arrancada aos pedacinhos dos fumos da última semana e desvenda enredos com impensáveis e inacreditáveis atores de vida pública.
Um juiz que vive na Idade Média dos valores e costumes de há 50 anos, um presidente da República que cai em armadilhas de tanto falar, deputados e presidentes de câmara com reis na barriga e outros tantos no que dizem, governante com gatos escondidos em declarações públicas de amor à consorte, revisor de contas com os pés pelas mãos e um bastão a condizer, um governador do Banco de Portugal, e um ex, a bradarem no deserto do não sei, uma inconcebível diretora de prisão e um ex-diretor nacional de polícia que não dizem coisa com coisa.
Também desfilam Conselheiros Acácios a marcar passo ostentando máscaras muito comentariosas. E passeiam outros espécimes que já não cabem neste resumir. Enfim, gente que está, ocupa lugar, mas não sabe estar. Digamos que não há “sentido de Estado” que lhes resista.
Excelentíssimo intérprete, Ricardo Araújo Pereira aponta doenças crónicas e agudas da sociedade e dos seus atores mais influentes, em doses – uma ou outra vez desmesuradas e facilitistas (ninguém é perfeito) – de humor corrosivo que fala por nós sobre quem não está (ou não sabe estar) ao serviço do bem comum. Este telejornal do que passou nos telejornais perscruta e inquere o que não desvendámos quando os consumimos. O que passou incólume ao olhar apressado (ou cansado, ou agoniado) que lhes deitámos. O que não anotámos, porque não notámos, e que desmonta a falsidade do que se passa nos palcos de enganos e desenganos.
É um telejornal outro. Um outro olhar, um outro pensar e estar nos telejornais, face ao que nos fornecem sem tomarmos consciência da gravidade do que passa. O que empata e não desempata. O que nos enrola e não desenrola. As incoerências, a insinceridade e os subentendidos no que dizem. O que passa tempo com passatempos. Essa é a conceção de televisão em vigor e este “Gente que não sabe estar” apela para que olhemos para o pequeno ecrã com outros olhos e com exigências de outra maneira de dirigir o país e de fazer a televisão de que precisamos.
“Gente Que Não Sabe Estar” é um programa que subverte, desencaixa, abre os sacos de plástico para onde atirámos as matérias de pensar. Destapa a burca da gente que não sabe estar e esfrega-lhes a cara com o significado ocultado do que proclamam e não fazem. A gente que não sabe estar congela a substância, afoga a complexidade e vive nas suas deficiências como se fossem qualidades. Ocupa o espaço onde os protagonistas deviam ser outros e de outra maneira. E, já sabemos, entre não saber estar e ser, vai um saltinho de pardal.
Quem gosta de arrumações pode dizer que é um programa simplesmente humorístico. Já seria bom se fosse, apenas, um (bom) programa humorístico. É muito e muito mais.

Autor: Manuel Costa Alves

(publicado em SEMANÁRIO “RECONQUISTA – CATA-VENTOS – 11 ABR 2018)