Quarta-feira, Novembro 30, 2022
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Linha da Frente. Os dias em suspenso

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Portugal continua a ter, diariamente, uma despesa indevida com internamentos inapropriados. Os casos sociais continuam a ser uma realidade difícil para os hospitais portugueses. São centenas em todo o país e acontecem por razões diversas: ou por isolamento, ou por abandono, ou até porque as famílias, querendo, não têm condições para garantir os cuidados necessários. 
 Os tempos de espera por uma solução de cariz social chegam a superar um ano. Das unidades de saúde, ouve-se a crítica à falta de respostas sociais de um país que, em 2050, será o mais envelhecido da Europa.

Além dos casos sociais, há camas ocupadas com pessoas que esperam por uma vaga na Rede Nacional de Cuidados Continuados, onde ainda faltam cerca de cinco mil camas no país. 

Carolina Jordão, internada vários meses sem necessidade RTP

 “Se chegar aos 78, chego, se não chegar, já passei a minha mocidade”
Está sentada à mesa de cabeceira que lhe calhou na sorte. Vai trocando palavras com a colega de quarto enquanto gasta as horas entre linhas e agulhas. Carolina Jordão aprendeu a bordar nos tempos da juventude quando a velhice ainda nem sequer lhe passava pelas ideias. Desabafa que, ao menos assim, está distraída: “Vem o natal, se eu quiser dar uma prenda sem estar a gastar dinheiro, já aqui tenho para dar!”.

E o pano ganha forma.

Aos 77 anos, uma crise de saúde levou-a a um hospital onde ficou internada. Teve alta clínica pouco tempo depois, mas continuou a viver num hospital meses a fio.

“Nunca pensei muito. Ia andando e ia vendo. Era um dia de cada vez e eu não me estava a atrapalhar. A pouco e pouco, a pouco a pouco cheguei aos 77 anos. Agora, se chegar aos 78, chego, se não chegar, já passei a minha mocidade. Já estou preparada para tudo!”, conta Carolina.
A realidade que não muda de ano para ano
Em janeiro, os dados cedidos pelas Administrações Regionais de Saúde do país à RTP contabilizavam mais de 600 casos sociais – pessoas que tendo alta clínica continuaram a viver num hospital por falta de respostas na comunidade.

Maria João Correia é a diretora do Serviço Social do Hospital de Penafiel e lida diariamente com esta realidade, na procura por soluções.

“É de todo impensável e é de todo nefasto que um doente permaneça tanto tempo num hospital de agudos por uma resposta que é meramente social. Se um doente viver só, não tem filhos, chega ao hospital e não pode regressar ao domicílio, à partida tem mesmo de ficar. Nós não devolvemos doentes à comunidade sem estar em segurança. E já sabemos que a saída do doente em termos efetivos vai ser longa, para cima de um ano”, afirma.

O problema não escolhe hospitais, é comum ao país todo. “A urgência é efetivamente um local de fácil acesso. Quando se diz pode ter alta, as famílias respondem muitas vezes não sou capaz, por este motivo ou por aquele, e os doentes acabam por ficar, como é óbvio”. A observação é de Graça Barros, a diretora do Serviço Social do Hospital de Gaia.

“Estamos a confinar uma pessoa a uma enfermaria com um pijama vestido durante vários meses, o que eu não considero digno”, lamenta.


A radiografia aos hospitais portugueses
 
A 18 de fevereiro, a Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares fazia um levantamento, junto dos hospitais, do número de internamentos indevidos. A radiografia apontava para 1551 hospitalizações desnecessárias. São casos que, nas contas dos administradores, provocaram uma despesa inapropriada de quase 40 milhões de euros.
 Além disso, esta problemática traduz-se em cirurgias adiadas e risco para os doentes, como refere Vítor Paixão Dias, diretor do Serviço de Medicina Interna do Hospital de Gaia: “Representa insegurança para o doente e representa outros doentes que podiam estar a ocupar aquelas camas e estão indevidamente internados no serviço de urgência, em macas”.  
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