Opinião

0
A FRAUDE
Um perigo nos espreita. Um perigo que pode ser fatal. E é indispensável que estejamos bem conscientes disso e o saibamos denunciar. Está em curso uma manobra inteligente, insidiosa, vil, de pôr portugueses contra portugueses: jovens contra velhos, activos contra reformados, privados contra funcionários públicos, mais pobres contra a classe média. A estratégia consiste em “poupar” os mais desfavorecidos e mesmo distribuir por eles um punhado de euros, fazer a classe média pagar a crise, crise pela qual não é responsável, e proteger os mesmos interesses que a provocaram. Os pobres continuarão pobres, a classe média ficará depauperada e permanecerão incólumes os interesses da finança nacional e internacional que os sucessivos (des)governos têm servido.
Quando o primeiro-ministro vem bramar por justiça social, chorando lágrimas de crocodilo pelos pensionistas do regime não-contributivo e, em geral, por todos os que têm pensões abaixo dos 600 euros, e denunciando os privilegiados beneficiários de pensões milionárias, muito superiores aos descontos efectuados, será que está a pensar em rever toda a legislação que permitiu estes casos e em anular as que carecem de fundamento legal? Não, ele está a defender uma medida que não se aplica apenas a pensionistas milionários, mas a todos os que recebem pensões superiores a 1350 euros. Uma medida que vem acrescentar-se à tributação em sede de IRS, configurando um caso de dupla tributação. Não tenhamos qualquer dúvida sobre a intensão da “denúncia” das reformas milionárias : em qualquer outro contexto, quando são propostas medidas correctivas desta e doutras situações igualmente escandalosas, não faltaria quem as descartasse desde logo, com o pretexto de que isso geraria um encaixe insignificante.
Não. Quando, no passado domingo, atacou os seus naturais amigos (embora se sinta injustiçado por, agora, alguns lhe terem mordido a mão), com uma indignação tão hipócrita como as lágrimas de crocodilo vertidas pelos desfavorecidos, o primeiro-ministro pretendeu despertar a hostilidade dos mais desfavorecidos e conquistar o seu apoio para uma medida que é fundamentalmente dirigida contra a classe média e, nomeadamente os pensionistas, que sempre durante a sua vida activa descontaram para assegurar uma existência digna na fase terminal das suas vidas. Um dia, em vez de se melhorarem as condições de vida dos mais pobres, esvaziar-se-á a classe média e fortalecer-se-á o poder dos mais ricos.
O que mais assusta é que há uma inteligência astuta a delinear esta estratégia. Não subestimemos essa inteligência. Não basta termos razão. Temos de ser igualmente inteligentes.

Luis Gottschalk