Pausa

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O País das Maravilhas
Um par de skis, sff.
Hoje nem me arranjei de jeito. Estava cheia de pressa. Tinha de chegar àquela grande superfície para não perder a vez. Sendo Domingo, calculei que houvesse fila e eu queria despachar-me. Despachar-me, ser eficiente e eficaz, dois em um. Aposto que sabem a diferença.
É uma grande superfície numa das saídas de Lisboa – muito fácil aliás de lá chegar, basta ter carro – especializada em artigos para desporto. Calço 38 que é um número normal para uma pessoa com 1,69 m. e como a maior parte dos portugueses é normal, estava cheia de pressa porque tive receio que os skis se esgotassem. Saí de casa determinada a acotovelar se necessário fosse. Acotovelar à direita, também à esquerda mas sempre mais à direita. Ia lá perder esta grande oportunidade de gastar dinheiro, de me manifestar, de animar o pequeno comércio. Eu nunca comprei skis antes, nem sei andar de skis, será que preciso de calçadeira? Fico cheia de complexos, não sei se é politicamente correcto admitir que nunca comprei skis, pior, que nunca experimentei skis. Na realidade, vão ser as minhas primeiras férias de Inverno e estou muito excitada com a ideia. Depois, no terraço cá em casa, vou experimentá-los mas aviso primeiro a vizinhança não vá tropeçar, meter os skis pelas mãos, eu sei lá, tudo pode acontecer a quem nunca enfiou os pés nuns skis. Ski se caio!
Deve ser fantástico ter neve em vez de areia. A areia é mais amarela, há quem lhe chame dourada. Quando está muito calor queima os pés. Dizem-me que a neve também queima. Queimam ambas, pelos vistos. Vou experimentar porque queimada já eu ando, vamos lá ver qual queima mais. Não sei o que substitui o mar mas até Novembro devem mandar instruções. E depois não paro de pensar que é extraordinário dispor de mais de 1000 quilómetros de praia, ondas que dão para mergulhar, fazer carreirinhas, surfar para os mais valentes e ir bater os dentes para a neve. É um desporto novo: bater os dentes. Costumo ranger os dentes, bater é uma nova modalidade a que vamos todos aderir. Bate coração, bate. Deixamos a areia para os turistas estrangeiros e nós vamos para a neve. Deve ser muito bom porque nos estão a incentivar a isso. Ainda não deram indicações é se vamos todos para a Torre ao mesmo tempo ou se vamos por turnos. Para já, vou comprar os meus skis. Depois há mais equipamento a adquirir mas vou por partes. Em prestações suaves como os subsídios, talvez possa comprar o carapuço, as luvas, o kispo adequado incluindo calças, as botas, os óculos, cada coisa em seu mês. Ah, também as correntes para os pneus mas estas, se calhar, são noutra loja. Vou à net. A grande superfície vai agradecer a chegada destes portugueses sôfregos com a novidade. Prometo que depois vos escrevo da Torre ou da Lagoa Azul. Azul de frio, claro.
Maria Luísa Cabral
16 Junho 2013