Texto publicado na página do Facebook da autora

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Carmen Garcia

Corria o ano de 2010 e eu, para além do trabalho no hospital, acumulava umas horas num lar cujo nome não importa para o caso.
Um dia, em pleno Julho, com temperaturas muito elevadas, apercebi-me que não estávamos a conseguir hidratar convenientemente os nossos utentes. Como a administração não permitia que se ligasse o ar condicionado fora da hora das visitas, a temperatura na sala onde a maioria dos idosos passava parte do dia era assustadoramente elevada. Vai daí tive uma ideia. Pedi que fosse comprada uma garrafa de água pequena para cada idoso e fiz um rótulo personalizado para cada uma, com o nome e um desenho de alguma coisa que permitisse ao dono identificá-la (uma boa parte dos nossos idosos não sabia ler). Depois combinei com todos que no período da manhã queria ver as garrafas ficarem vazias e a mesma coisa no período da tarde. Parecendo que não, só isto já me garantia que cada um ingerisse meio litro de agua por dia, fora do período das refeições.

Deixem-me dizer-vos que estamos a falar de menos de cem utentes e de garrafas que devem custar cerca de quinze cêntimos. Mas o que é que eu fui fazer? Só vos digo que esta ideia me custou uma chamada “ao gabinete” e um puxão de orelhas por parte da direcção. Gastava-se dinheiro (mesmo que a garrafa fosse sempre a mesma e cheia na torneira), dava trabalho, alguns velhotes entornavam, não sei quem tinha feito queixa, enfim… Argumentos completamente idiotas que fizeram com que a minha ideia estivesse em prática menos de uma semana.
Um mês mais tarde, em meados de Agosto, estava eu novamente de serviço e um utente veio dizer-me que queria ir para a horta. Reparem, era um homem de 84 anos, que toda a vida trabalhou no campo e era ali que encontrava a felicidade. Como o sol estava forte e ele tinha um sinal estranho no nariz, coloquei-lhe no rosto um protector 50+ que encontrei no armário. Não sei quem mais viu, mas sei que menos de uma hora depois estava de volta ao gabinete a ouvir gritos enfurecidos. Porque o protector é caro, porque tinha que ser bem gerido, porque o senhor tinha oitenta e tal anos… Olhem, já nem sei. Sei que, para mim, foi a gota de água e que tomei ali mesmo a decisão de me despedir.
E serve este relato para quê? Para vos dizer que, em Portugal, a maioria dos lares funciona francamente mal. Quem os gere está quase exclusivamente preocupado com números e é muito difícil romper com práticas hediondas que, por serem tão comuns, passaram a ser encaradas como normais.
Por mais que os estudos nos mostrem que as imobilizações não diminuem o risco de quedas e acidentes, um número gigante de idosos continua a permanecer dias inteiros amarrado a cadeiras de rodas e cadeirões. Por mais que se fale em respeito pela individualidade de cada um, há centenas de camaratas de seis e oito camas espalhadas pelos lares deste país. Por mais que se abomine a infantilização e se fale na sabedoria da idade, milhares de idosos são tratados como crianças incapazes de decidir por si mesmas.
A maioria dos lares deste país tem funcionárias incríveis, acreditem. Mas em número muito inferior ao mínimo admissível. E elas correm de um lado para o outro, num trabalho com uma carga física brutal, mas é impossível chegarem a todo o lado. Os rácios de enfermeiros também são coisa que não passa do papel, porque na prática os enfermeiros são poucos, forçados a trabalhar sem condições e mal pagos.
Eu cá, se fosse a ministra, dava um olhinho ao relatório de Reguengos. E pedia aos serviços distritais de Segurança Social que levassem a sério as queixas que lhes chegam diariamente. Também deixava de fechar os olhos a tudo e mais um par de botas porque, afinal, temos que escoar os idosos para qualquer lado.
É que os idosos são, não só o lugar de onde viemos, mas também o lugar para onde vamos. E merecem, eles e nós, muito melhor do que aquilo que lhes damos neste momento.